Blog

Deal-breakers : pontos de atenção em processos de M&A


Você já viu essa cena: meses de conversa, clima de “agora vai”, até que um deal-breaker (fator que leva à quebra do acordo) aparece e o negócio morre de forma repentina? A narrativa depois é sempre a mesma: foi algo imprevisível, um raio em céu azul, “não tinha como saber”.

Na prática, o “não” quase nunca nasce de uma hora para outra. Normalmente, o problema já estava na mesa desde o começo, disfarçado em EBITDA turbinado, receita concentrada, licença que “está chegando” ou risco fiscal que todo mundo preferiu empurrar com a barriga.

Estudos indicam que entre 70% e 90% das transações de M&A fracassam ou não geram o valor esperado, com a due diligence aparecendo como um dos principais pontos de ruptura. Pesquisas com executivos mostram que uma parcela relevante dos deals que não se concretizam envolve riscos que estavam presentes desde o início, mas não foram devidamente mapeados, quantificados ou colocados na mesa a tempo.

A conclusão incômoda é simples: na esmagadora maioria dos casos, o “não” vem de problemas estruturais que já existiam (latentes e mal dimensionados) e que só ganham nome, número e gravidade conforme a diligência avança e as concessões passam a exigir lastro.


Os oito deal-breakers mais recorrentes

Deal-breakers em M&A não são estáticos: eles mudam de intensidade e de forma conforme o processo avança. Ainda assim, há um conjunto de fatores que, quando presentes, tende a comprometer a transação em praticamente qualquer fase:

  1. Inconsistências nas demonstrações financeiras
    Receitas e EBITDA inflados, passivos omitidos ou demonstrações que não suportam uma due diligence minimamente robusta. Esse tipo de problema costuma aparecer cedo, e quando só aparece mais tarde, costuma derrubar o deal com custos financeiro e reputacional muito mais expressivos.
  2. Dependência excessiva de um único stakeholder relevante
    Concentração de receita em um único cliente, fornecedor ou contrato cria um risco operacional que qualquer comprador sério vai querer precificar (ou evitar). Quanto maior a dependência, menor a resiliência percebida e maior o desconto pedido ou a probabilidade de desistência.
  3. Problemas regulatórios ou ausência de licenças essenciais
    Operar sem licença essencial é aceitar gatilhos permanentes para litígios, paralisações e perda de valor. A pergunta “cadê o alvará?” não deveria surgir na última milha, quando todos já estão emocionalmente comprometidos com o fechamento.
  4. Risco fiscal relevante
    Dependendo da história e da estrutura da empresa, a normalização pós-aquisição (ajuste para adequar as demonstrações às normas contábeis, legais e fiscais) pode exigir abatimentos tão expressivos no preço que inviabilizam o racional econômico da transação.
  5. Fragilidade ou ineficiência da governança
    Governança frágil impacta tanto a gestão do negócio quanto a condução do próprio processo de M&A. Estruturas decisórias nebulosas geram ruído, atrasam etapas, dificultam alinhamento entre sócios e aumentam a percepção de risco do comprador.
  6. Falta de consenso entre os sócios
    Um deal em que uma parte da sociedade quer vender e outra não é um deal que raramente fecha,  ou que fecha com muito mais atrito, insegurança e risco de arrependimento pós-closing. Alinhamento entre sócios é pré-requisito, não detalhe operacional.
  7. Período ruim de mercado
    Boas empresas já deixaram de ser vendidas por pura janela desfavorável — seja uma instabilidade macroeconômica, seja um momento de alavancagem excessiva ou aversão a risco no setor. Timing importa, e ignorá-lo pode custar meses (ou anos) de trabalho desperdiçado.
  8. Desalinhamento de valuation entre vendedor e comprador
    É natural que os preços sejam diferentes no início. Mas há situações em que os números simplesmente não se encontram, seja por expectativa fora da realidade por parte do vendedor, seja por disciplina extrema do comprador diante de um ativo que não encaixa perfeitamente no seu racional estratégico.

Deal-breakers por fase: onde o risco mora em cada etapa

Em M&A, o “não” raramente é um evento único. Os motivos para um negócio ser cancelado mudam conforme o processo avança. Entender em que fase cada risco tende a se manifestar é o que separa uma assessoria reativa de uma que de fato cria valor.

O início: muitos riscos, pouca informação

Nos estágios iniciais, o processo convive com assimetria de informação e alta percepção de risco. Tudo parece potencialmente grave porque pouco está documentado, verificado ou precificado.

Os pontos que mais costumam matar a conversa nessa fase são: inconsistências financeiras, risco fiscal relevante, dependência excessiva de um stakeholder-chave, governança frágil, incerteza regulatória e desalinhamento inicial de valuation.

A estratégia correta aqui é abrir o armário cedo. Tudo que é material vira preço, condição ou período de observação, em vez de virar surpresa na reta final. Mecanismos como escrow (conta garantia) não são sinal de desconfiança; são engenharia de risco, que permite que a negociação avance mesmo diante de incertezas mapeadas.

Na prática, ajuda organizar essa fase em três movimentos: inventário de riscos materiais, definição clara do que vira preço versus condição, alinhamento entre sócios e planejamento de comunicação com os potenciais compradores.

O meio: riscos reclassificados — e outros que surgem pelo caminho

À medida que a diligência aprofunda, o cenário muda de forma. Parte dos riscos identificados no início deixa de ser “deal-breaker” e passa a ser “condicionante”: pagamento retido, earn-out, covenants de governança, travas e condições precedentes. O risco não desaparece, apenas muda de lugar e de forma.

Ao mesmo tempo, novos pontos surgem: diferenças operacionais que não estavam no radar, integrações subestimadas, lacunas documentais (licenças, alvarás, contratos-chave) e, muitas vezes, conflitos sutis entre sócios que o avanço do processo torna explícitos.

O papel da assessoria nessa fase é traduzir risco em contrato antes de o relógio apertar. O que não for endereçado aqui tende a explodir na fase final, justamente quando o custo emocional e financeiro de recuar é muito maior para todos.

É a fase de diligência profunda, desenho da governança pós-deal, estruturação das travas contratuais e definição dos gatilhos de pagamento.

O fim: menos itens, intensidade máxima

Na reta final, em tese, preço e diligência já estão resolvidos. O que derruba o deal nessa fase costuma ser mais difícil de ajustar em cima da hora, mas não impossível de mitigar se tiver sido mapeado antes.

Os três culpados clássicos da última milha são: choques exógenos (mudança brusca de mercado que reprecifica o apetite do comprador a poucos dias do fechamento), governança pós-deal mal desenhada ( especialmente quando não se compra 100% da empresa) e, por fim, o fator humano.

Dois cenários recorrentes: o mercado vira, o apetite a risco cai e o comprador recua quando o deal já estava praticamente fechado; ou surge um novo comprador, aparentemente mais estratégico, o vendedor troca de contraparte e, com a piora do cenário, o novo comprador também desiste.

Muitos fundadores passam anos construindo um negócio brilhante para vê-lo desmoronar em poucos dias de negociação mal conduzida. Em M&A, esses “10 dias” costumam ser justamente a fase em que deal-breakers mal tratados desde o início explodem, seja em preço, governança ou alinhamento entre sócios.

Nesse momento, o checklist mínimo inclui: documentos críticos revisados, teste de pressão em cenários adversos, plano de contingência e, sobretudo, alinhamento humano (propósito, transição, papéis).

O fator humano: o deal-breaker mais silencioso

Há um elemento que raramente aparece nas análises formais e que, na prática, derruba tanto negócio quanto qualquer inconsistência financeira: o fator humano.

Fundadores não são planilhas. O vínculo identitário com o negócio que construíram, a dinâmica familiar ao redor da empresa e a questão do propósito pós-venda costumam pesar tanto quanto múltiplos e estrutura de pagamento. Se ninguém pergunta ao fundador “o que você vai fazer no dia seguinte ao closing?”, a resposta pode aparecer na hora errada, e virar um deal-breaker silencioso, aquele que não tem linha no relatório, mas encerrou a negociação.

Ignorar o fator humano não é só uma falha de empatia. É uma falha metodológica na forma de conduzir M&A.

M&A é criatividade aplicada a risco

Existe uma percepção equivocada de que deal-breakers são, por definição, pontos sem saída. Na prática, quase todo problema tem solução contratual: escrows, pagamentos condicionados, travas, earn-outs, cláusulas de performance e de governança são ferramentas de desenho de incentivos, não de desconfiança.

O que não se controla é o choque de mercado, aquele evento externo que reprecifica tudo de um dia para o outro. O que se mitiga é quase todo o resto, desde que os riscos sejam mapeados cedo, quantificados e tratados com transparência.

Por isso, a função da assessoria não é torcer para o deal fechar. É mapear cedo, quantificar e manter os riscos na mesa o tempo todo. Quanto mais cedo um potencial deal-breaker aparece, mais alternativas existem: mudar a estrutura, ajustar preço, criar mecanismos contratuais, replanejar o timing ou, em último caso, dizer “não” com serenidade, antes que dez anos de construção virem dez dias de destruição de valor.

Algumas lições práticas para reduzir a chance de ruptura: ter planos B e C (alternativas de compradores, estruturas ou prazos), prever cláusulas claras de desistência com penalidades e thresholds definidos (por exemplo, desistência sem multa se um risco novo exceder determinado valor) e garantir que a redação contratual reflita com precisão o que foi de fato acordado. Papel aceita tudo; o que faz diferença é a combinação entre planejamento, redação clara e capacidade real de execução.

Conclusão: o “não” é método, não uma questão de sorte

Na esmagadora maioria dos casos, o “não” em M&A não é falta de sorte, nem deve ser uma surpresa. É resultado de um processo mal conduzido, marcado por riscos mal mapeados, conversas difíceis adiadas e acordos que não refletem a realidade do negócio.

Quando a assessoria transforma risco em arquitetura do acordo, o deal depende menos de sorte e mais de uma execução disciplinada. E essa execução se torna mais previsível quando incentivos e cláusulas estão bem desenhados, e quando as perguntas certas são feitas a tempo de chegar a respostas que atendam aos interesses de todos, com o equilíbrio que todo bom negócio demanda. 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Higor Rocha

Head de M&A e Estruturação de Projetos da J2L Partners desde 2023

Profissional autodidata, analítico, comunicativo e orientado a resultados, tem sete anos de experiência, tanto em corporações financeiras robustas, quanto em startups inovadoras.

Formado em Engenharia Mecânica pela UFMG e candidato a certificação CFA (level 3), possui um histórico sólido de transações bem-sucedidas em diversos setores, incluindo serviços financeiros, tecnologia, saúde e bens de consumo. 

 

Pedro Lanza

Head Jurídico
da J2L Partners desde 2016

Experiência como advogado tributarista de escritórios de advocacia de renome nacional, como Machado Associados e Sacha Calmon Mizabel Derzi Consultores e Advogados;

Graduado em Direito pela Faculdade de Direito Milton Campos – MG e Pós Graduado em Direito Tributário pela GVLaw – SP;

Possui MBA em finanças pelo IBMEC

João Marcos Aleixo

Analista de M&A e Estruturação de Projetos
da J2L Partners desde 2023

Começou sua trajetória na J2L em janeiro de 2021 como estagiário, onde aprimorou suas habilidades e se familiarizou com os diversos aspectos do M&A. 

Sua paixão pela área e busca constante por conhecimento o levaram a se destacar e, em pouco tempo, se tornar um membro valioso da equipe. 

Nos últimos anos, participou de importantes transações nos setores de logística e saúde. 

Fora da J2L, João se envolveu em projetos acadêmicos que demonstram sua versatilidade e aptidão para negócios. Como membro da Escola de Negócios da UFRJ – Consulting Club, participou da criação e implantação do processo avaliativo para novos membros. 

Lúcio Otávio

Membro do Conselho de Administração ,
CEO e fundador da J2L Partners.

Mais de 30 anos de experiência em posições executivas

Trabalhou durante 14 anos no Grupo Andrade Gutierrez, sendo Diretor de Investimentos sua última posição

Foi membro do Conselho de Administração da Oi S.A. e da Santo Antônio Energia

Foi responsável pela estruturação de projetos como Hidrelétrica de Santo Antônio e Aeroporto de Quito – sendo esse último eleito pela revista Project Finance o Latin American Transport Deal of the Year no ano de 2006

Gestor de investimentos credenciado pela CVMGraduado em Administração pela FUMEC – MG e MBA em Finanças pelo IBMEC.

Líbano Barroso

Membro do Conselho de Administração e
fundador da J2L Partners, e CEO da Rodobens

Mais de 30 anos de experiência em posições executivas

Posições nos últimos 15 anos: Membro do conselho de Administração da Via Varejo, Estácio, Ri Happy e Intermédica. CEO da Via Varejo, Vice Presidência do Grupo Pão de Açúcar, CEO da TAM, CFO da LATAM Airlines, CEO da Multiplus e CFO da CCR

Responsável pela idealização e estruturação da Multiplus e da CCR (incluindo sua Oferta Pública Inicial), e pela fusão LAN/TAM

Graduado em Economia pela UFMG – MG, MBA em finanças pelo IBMEC e Pós-graduado em Direito Empresarial pela FGV.

João Lanza

Membro do Conselho de Administração e fundador da J2L Partners,
e Diretor-fundador da Mundinvest CTVM.

Mais de 40 anos de experiência no mercado de capitais

Posições nos últimos 15 anos: Membro do Conselho da BOVESPA, Membro do Conselho da BSM – BM&F BOVESPA (supervisão de mercados) e Presidente da APIMEC-MG

Gestor de investimentos credenciado pela CVM, responsável por administrar carteiras de clubes de investimento na Mundivest.

Graduado em Administração pela FUMEC – MG.