Blog

A ilusão do “deal-breaker surpresa”: por que o “não” quase nunca vem do nada

No universo de M&A, existe uma crença quase folclórica: a de que o “deal-breaker” é um evento-surpresa, um raio em céu azul que aparece do nada e detona meses de negociação. Os dados contam uma história diferente. Estudos indicam que de 70% a 90% das transações de M&A fracassam na fase de due diligence. A Deloitte aponta que 64% dos deals que não se concretizam envolvem riscos que simplesmente não foram devidamente identificados no início da negociação. 

A conclusão é incômoda, mas necessária: na esmagadora maioria dos casos, o “não” não vem do nada. Ele vem de problemas estruturais que já existiam (latentes, mal quantificados, sem dono) e que só ganham nome, número e gravidade conforme a diligência aprofunda e as concessões precisam de lastro.

O que está por trás dos números

As cinco principais causas de falha em M&A são: (1) incompatibilidade cultural, (2) má integração de talentos e equipes de gestão, (3) falhas na due diligence que deixaram de identificar questões críticas, (4) sinergias superestimadas, e (5) encaixe estratégico insuficiente. Pelo menos três dessas cinco causas são perfeitamente mapeáveis no início do processo, se alguém se der ao trabalho de fazer as perguntas certas.

No Brasil, o mercado de M&A movimentou R$ 220 bilhões em 2025, com uma alta de 20% em valor em relação ao ano anterior. O volume é expressivo. O que poucos mencionam é que, por trás das manchetes de fechamento, há centenas de deals que morreram silenciosamente por causa de riscos que ninguém quis enfrentar no começo.

O deal-breaker já estava lá

A experiência prática confirma o que os dados sugerem. Cerca de 90% dos problemas que encerram uma negociação de M&A derivam de riscos previsíveis e questões estruturais presentes desde o início. 

Alguns cenários recorrentes:

EBITDA “vitaminado”: receitas infladas, passivos omitidos, demonstrações que não suportam uma diligência minimamente robusta. A PwC aponta que a maior parte das empresas que não passam na due diligence apresentam inconsistências contábeis ou problemas na demonstração de resultados.

Receita concentrada: dependência excessiva de um único cliente, fornecedor ou contrato relevante, concentrando risco operacional e tornando a empresa vulnerável a uma ruptura pontual.

Licenças “a caminho”: operar sem licença essencial é aceitar gatilhos para litígios, paralisações e perda de valor.

Risco fiscal relevante: quando a normalização pós-aquisição (ajuste necessário para adequar as demonstrações financeiras da empresa-alvo às normas contábeis, legais e fiscais – compliance) exigiria abatimentos tão expressivos no preço que inviabilizam o racional econômico do deal.

A importância de uma assessoria especializada 

O papel da assessoria não é “torcer para dar certo”. É mapear cedo, quantificar e manter os riscos na mesa o tempo todo. Quanto mais cedo um potencial deal-breaker aparece, mais alternativas existem: mudar a estrutura, ajustar preço, criar mecanismos contratuais, replanejar o timing ou, em último caso, dizer “não” com serenidade, antes que dez anos de construção virem dez dias de destruição.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Higor Rocha

Head de M&A e Estruturação de Projetos da J2L Partners desde 2023

Profissional autodidata, analítico, comunicativo e orientado a resultados, tem sete anos de experiência, tanto em corporações financeiras robustas, quanto em startups inovadoras.

Formado em Engenharia Mecânica pela UFMG e candidato a certificação CFA (level 3), possui um histórico sólido de transações bem-sucedidas em diversos setores, incluindo serviços financeiros, tecnologia, saúde e bens de consumo. 

 

Pedro Lanza

Head Jurídico
da J2L Partners desde 2016

Experiência como advogado tributarista de escritórios de advocacia de renome nacional, como Machado Associados e Sacha Calmon Mizabel Derzi Consultores e Advogados;

Graduado em Direito pela Faculdade de Direito Milton Campos – MG e Pós Graduado em Direito Tributário pela GVLaw – SP;

Possui MBA em finanças pelo IBMEC

João Marcos Aleixo

Analista de M&A e Estruturação de Projetos
da J2L Partners desde 2023

Começou sua trajetória na J2L em janeiro de 2021 como estagiário, onde aprimorou suas habilidades e se familiarizou com os diversos aspectos do M&A. 

Sua paixão pela área e busca constante por conhecimento o levaram a se destacar e, em pouco tempo, se tornar um membro valioso da equipe. 

Nos últimos anos, participou de importantes transações nos setores de logística e saúde. 

Fora da J2L, João se envolveu em projetos acadêmicos que demonstram sua versatilidade e aptidão para negócios. Como membro da Escola de Negócios da UFRJ – Consulting Club, participou da criação e implantação do processo avaliativo para novos membros. 

Lúcio Otávio

Membro do Conselho de Administração ,
CEO e fundador da J2L Partners.

Mais de 30 anos de experiência em posições executivas

Trabalhou durante 14 anos no Grupo Andrade Gutierrez, sendo Diretor de Investimentos sua última posição

Foi membro do Conselho de Administração da Oi S.A. e da Santo Antônio Energia

Foi responsável pela estruturação de projetos como Hidrelétrica de Santo Antônio e Aeroporto de Quito – sendo esse último eleito pela revista Project Finance o Latin American Transport Deal of the Year no ano de 2006

Gestor de investimentos credenciado pela CVMGraduado em Administração pela FUMEC – MG e MBA em Finanças pelo IBMEC.

Líbano Barroso

Membro do Conselho de Administração e
fundador da J2L Partners, e CEO da Rodobens

Mais de 30 anos de experiência em posições executivas

Posições nos últimos 15 anos: Membro do conselho de Administração da Via Varejo, Estácio, Ri Happy e Intermédica. CEO da Via Varejo, Vice Presidência do Grupo Pão de Açúcar, CEO da TAM, CFO da LATAM Airlines, CEO da Multiplus e CFO da CCR

Responsável pela idealização e estruturação da Multiplus e da CCR (incluindo sua Oferta Pública Inicial), e pela fusão LAN/TAM

Graduado em Economia pela UFMG – MG, MBA em finanças pelo IBMEC e Pós-graduado em Direito Empresarial pela FGV.

João Lanza

Membro do Conselho de Administração e fundador da J2L Partners,
e Diretor-fundador da Mundinvest CTVM.

Mais de 40 anos de experiência no mercado de capitais

Posições nos últimos 15 anos: Membro do Conselho da BOVESPA, Membro do Conselho da BSM – BM&F BOVESPA (supervisão de mercados) e Presidente da APIMEC-MG

Gestor de investimentos credenciado pela CVM, responsável por administrar carteiras de clubes de investimento na Mundivest.

Graduado em Administração pela FUMEC – MG.