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A consolidação no móvel “acabou” – mas só para os gigantes

A declaração do presidente da Anatel, Carlos Baigorri, de que “a consolidação do mercado de telefonia móvel não vai acontecer mais” precisa ser lida no contexto certo: ela fala, essencialmente, do fim da disputa entre gigantes por um “quarto grande player nacional” no varejo de massa. Mais do que uma frase de impacto, é um recado de que o ciclo de grandes fusões entre Claro, Vivo e TIM se encerrou, e que o jogo competitivo no móvel passa a ser de eficiência e inovação sobre uma estrutura oligopolizada que veio para ficar.  

A mensagem implícita do regulador não é que “ninguém compra mais ninguém”, mas que o eixo da transformação competitiva migra do topo da pirâmide para as bordas do mercado – onde estão MVNOs, PPPs, ISPs regionais e novos modelos de entrada.

Consolidação no topo, movimento nas bordas

A Anatel reconhece que o mercado móvel brasileiro chegou a uma estrutura estável de três grandes grupos – Claro, Vivo e TIM – que concentram a imensa maioria dos acessos móveis. Os indicadores de concentração, como o HHI, permanecem elevados, porém dentro das metas estratégicas da própria agência, o que caracteriza um oligopólio consolidado, mas considerado “aceitável” do ponto de vista regulatório.  

Na prática, o regulador está dizendo ao mercado: não conte com novas grandes fusões ou com a entrada de um “quarto player nacional” como vetor central de mudança; o rearranjo estrutural pós-Oi já aconteceu. Isso, porém, não congela o mapa competitivo. Ao mesmo tempo em que o tripé nacional se estabiliza, cresce o espaço para prestadoras de pequeno porte e operadoras virtuais (MVNOs) que exploram nichos geográficos, segmentação e parcerias de atacado.

 A consolidação saiu do centro e foi para as bordas

Relatórios e dados recentes mostram um mercado que não está mais em modo “tsunami” de consolidação, mas também está longe de estar parado. No móvel, os grandes negócios de fusão e aquisição entre players nacionais ficaram para trás, mas continuam acontecendo operações menores, em volume relevante, envolvendo regionais, PPPs, MVNOs e integradores.  

A leitura de “acabou a consolidação” faz sentido se o foco for exclusivamente o topo da cadeia – a disputa entre Claro, Vivo e TIM. Quando olhamos a camada intermediária e as bordas, o quadro muda: ainda há um fluxo significativo de M&As, só que com tíquetes menores, critérios mais seletivos e compradores diferentes – sobretudo empresas de médio porte que consolidam clusters regionais ou verticais específicas.

 Crescimento marginal em acessos, disputa intensa em valor

No móvel, o crescimento de acessos é, hoje, marginal. A base total tende a oscilar em torno de um patamar já maduro, com pouco espaço para grandes saltos de volume. A competição relevante migra para outras dimensões: qualidade de rede, cobertura 4G/5G, estabilidade de serviço, experiência digital e diferenciação comercial.  

Em vez de guerras de preço massivas que destruam valor, as operadoras buscam reter e monetizar melhor suas bases existentes. Isso significa foco em ARPU, upsell para planos mais completos, bundling de serviços digitais, programas de fidelidade e oferta de soluções integradas para segmentos específicos (como PME, alta renda, empresas, IoT e redes privadas).

 Banda larga fixa: menos barulho, muito M&A

Em banda larga fixa, especialmente em fibra, o discurso de que “a consolidação acabou” também não se sustenta quando olhamos os dados. Houve, de fato, um boom de consolidação entre 2020 e 2022, com dezenas de operações por ano, seguido de uma desaceleração em 2024–2025. Mas mesmo nesse período de “queda” ainda se observa um volume elevado de M&As, quando comparado a outros setores.  

O que está em curso é uma segunda fase do ciclo: as empresas que compraram muito no primeiro momento estão concluindo a captura de sinergias, reduzindo o peso de pagamentos parcelados e voltando a ter fôlego para novas aquisições. Ao mesmo tempo, vários ISPs regionais chegaram a um patamar de maturidade em que vender – total ou parcialmente – passa a ser uma opção concreta de estratégia e liquidez.

 Um cenário confortável para as grandes, desafiador para o regulador

Essa combinação de maturidade, estabilidade de market share e baixa rotatividade entre grupos no topo da pirâmide é confortável para as grandes operadoras. Elas operam com escala, previsibilidade e margem para ajustar portfólios e CAPEX sem a ameaça de uma disrupção estrutural imediata.  

Para o regulador, porém, esse conforto cobra um preço: se a estrutura está dada, a sociedade passa a cobrar resultados em conduta – preços, inovação, qualidade e cobertura, sobretudo em regiões de baixa renda e interior. Ao assumir que o ciclo de grande consolidação no móvel se encerrou, a Anatel se coloca sob pressão para mostrar que consegue induzir competição efetiva dentro de um oligopólio, com instrumentos como metas de HHI, regulação de atacado, revisão do PGMC e atuação coordenada com o Cade.

O novo campo de batalha competitivo

A fala da Anatel, combinada com seus relatórios de monitoramento, sugere que o “novo campo de batalha” competitivo não é mais a consolidação entre gigantes, mas três outras frentes que definem a agenda dos próximos anos:

1. Qualidade de rede e experiência do cliente  

   A disputa desloca o foco do “preço por giga” para a entrega de valor percebido: performance de rede, disponibilidade, latência, atendimento digital e usabilidade dos canais. Em mercados maduros, é essa experiência integral que sustenta diferenciação e disposição a pagar, especialmente em segmentos pós-pago de maior valor e no corporativo.

2. Integração com serviços digitais e plataformas  

   Plataformas OTT e serviços digitais avançam de forma consistente, substituindo a voz tradicional, comprimindo receitas de serviços legados e deslocando o consumo audiovisual para streaming. Isso empurra as teles para modelos de ecossistema: parcerias com big techs, bancos digitais, varejistas e desenvolvedores, bundles com conteúdo, segurança, nuvem, meios de pagamento e serviços para PME.

3. Atacado, MVNOs e novos modelos de entrada  

   Num varejo concentrado, a arena de maior dinamismo competitivo passa a ser o atacado: compartilhamento de rede, redes neutras, ofertas de capacidade, MVNOs e prestadoras de pequeno porte. Em vez de construir infraestrutura do zero, novos entrantes usam ativos existentes – de grandes grupos ou de operadores de rede neutra – para criar ofertas segmentadas, seja no B2C regional, seja em nichos B2B e verticais específicas.

Para players menores: do sonho do “quarto grande” à tese de nicho

Para players menores, a agenda deixa de ser “entrar comprando espectro para virar a quarta grande operadora nacional” e passa a ser “usar a infraestrutura existente com inteligência comercial, segmentação e proposta de valor diferenciada”.  

Isso significa, na prática:

– Focar em geografias específicas, onde a presença dos grandes é frágil ou mal adaptada à realidade local.  

– Atacar verticais B2B: indústria, agro, logística, cidades inteligentes, educação, saúde, serviços públicos.  

– Construir ofertas sob medida (IoT, redes privadas, soluções de conectividade gerenciada, segurança, analytics).  

– Estruturar MVNOs e PPPs com o suporte de redes neutras ou acordos de atacado, em vez de replicar todo o CAPEX de uma operadora integrada.

A mensagem para o pequeno operador que pensa em ser comprado é clara: a consolidação continua acontecendo, mas o comprador típico não é mais a grande operadora nacional, e sim grupos de médio porte e consolidadores regionais que sabem o que buscam – qualidade de rede, governança básica, base de clientes estável e encaixe geográfico.

 Para operadoras estabelecidas: extração de valor e disciplina regulatória

Para as operadoras estabelecidas, o desafio estratégico é extrair valor de uma base madura, sem a válvula de escape das grandes aquisições. Isso passa por:

– Upsell digital (planos mais completos, serviços adicionais, bundles).  

– Redução estrutural de churn via experiência de cliente, contratos inteligentes e programas de fidelidade bem calibrados.  

– Eficiência operacional e automação, com uso intensivo de dados para gestão de rede, atendimento e cobrança.  

Ao mesmo tempo, a pressão regulatória tende a se concentrar em:

– Práticas comerciais (transparência, clareza de preços, não discriminação).  

– Neutralidade competitiva no atacado (condições justas para MVNOs e pequenos).  

– Equilíbrio entre grandes grupos e menores em regiões de baixa renda e interior, evitando fechamento de janelas competitivas que ainda existem nas bordas.

 Para ISPs, MVNOs e novos entrantes: especialização como vantagem competitiva

Para ISPs (provedores de internet), MVNOs (operadoras móveis virtuais) e novos entrantes, a tese de crescimento deixa de ser “crescer até virar alvo dos grandes” e passa a ser “posicionar-se no lugar certo da cadeia de valor”. As oportunidades mais interessantes estão em:

– Nichos geográficos bem escolhidos, com densidade de demanda e espaço para diferenciação de atendimento.  

– Verticais B2B e setoriais (indústria, agro, cidades, utilities) que exigem soluções completas e serviço, não apenas conectividade crua.  

– Experiências digitais segmentadas, com foco em jornada do cliente, atendimento, integração com aplicativos e serviços de terceiros.  

A regulação mais ativa em atacado e espectro – com metas de HHI, revisão do PGMC e maior atenção ao mercado móvel – abre espaço para modelos de negócio baseados em parcerias, compartilhamento e especialização. Em vez de tentar replicar o CAPEX das grandes teles, o ISP ou MVNO competitivo é aquele que sabe usar a infraestrutura alheia como plataforma e monetizar a relação com o cliente final.

 Para a Anatel: de estrutura a conduta

Ao admitir a consolidação como fato consumado no topo do móvel, a Anatel muda a régua pela qual ela própria será cobrada. Se não haverá mais grandes movimentos estruturais, o que passa a importar é:

– Como a agência garante que um oligopólio “aceitável” em estrutura não se converta em abuso de poder de mercado em conduta.  

– Como transforma metas de HHI, regras de atacado, obrigações de cobertura e uso de espectro em mecanismos efetivos de promoção de competição e inclusão digital.  

Isso torna ainda mais central a coordenação com o Cade e outros órgãos de defesa da concorrência, deslocando a discussão de “quem pode comprar quem” para “como as empresas se comportam”: práticas comerciais, precificação, transparência, tratamento ao pequeno no atacado, discriminação de tráfego e bloqueios indiretos à entrada.

 Onde estão as oportunidades – e o papel que enxergamos para nós

Nesse contexto, vemos três grandes frentes de oportunidade para quem atua – ou quer atuar – na interseção entre estratégia, M&A e regulação em telecom:

– Teses de investimento e M&A nas bordas  

  Estruturar teses focadas em players regionais, MVNOs e integradores que se beneficiem do atacado das grandes redes, em vez de disputar o varejo nacional de frente. É nas camadas intermediárias e nas bordas que ainda há assimetria de informação, desalinhamento de expectativas e espaço para criação de valor com estratégia e execução disciplinada.

– Transformação de operadora em plataforma de serviços digitais  

  Apoiar operadoras e ISPs na transição de “empresa de infraestrutura” para “plataforma de serviços”, com foco em analytics, monetização de base, desenho de bundles, parcerias de ecossistema e experiências digitais. Em um mercado de crescimento marginal em acessos, é nessa capacidade de orquestrar serviços e relacionamento que se cria valor incremental.

– Tradução da agenda regulatória em vantagem competitiva  

  Atuar como ponte entre a agenda regulatória (HHI, PGMC, espectro, atacado) e a estratégia empresarial, ajudando a transformar obrigações em diferenciais: desenhar ofertas de atacado que estimulem demanda, organizar dados e governança para facilitar aprovação de operações, usar compromissos de investimento e cobertura como alavancas de expansão competitiva em novos territórios e segmentos.

A era da grande consolidação no varejo móvel nacional pode ter acabado, mas a era da disputa por valor, eficiência e inovação está apenas começando – sobretudo nas bordas do mercado. A pergunta que fica é: em qual camada dessa nova geografia competitiva a sua organização quer jogar – e que papel ela quer ocupar na próxima rodada de M&A, parcerias e construção de ecossistemas em telecom?

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2026/05/19/consolidacao-do-mercado-de-telefonia-movel-nao-vai-acontecer-mais-diz-presidente-da-anatel.ghtml

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Higor Rocha

Head de M&A e Estruturação de Projetos da J2L Partners desde 2023

Profissional autodidata, analítico, comunicativo e orientado a resultados, tem sete anos de experiência, tanto em corporações financeiras robustas, quanto em startups inovadoras.

Formado em Engenharia Mecânica pela UFMG e candidato a certificação CFA (level 3), possui um histórico sólido de transações bem-sucedidas em diversos setores, incluindo serviços financeiros, tecnologia, saúde e bens de consumo. 

 

Pedro Lanza

Head Jurídico
da J2L Partners desde 2016

Experiência como advogado tributarista de escritórios de advocacia de renome nacional, como Machado Associados e Sacha Calmon Mizabel Derzi Consultores e Advogados;

Graduado em Direito pela Faculdade de Direito Milton Campos – MG e Pós Graduado em Direito Tributário pela GVLaw – SP;

Possui MBA em finanças pelo IBMEC

João Marcos Aleixo

Analista de M&A e Estruturação de Projetos
da J2L Partners desde 2023

Começou sua trajetória na J2L em janeiro de 2021 como estagiário, onde aprimorou suas habilidades e se familiarizou com os diversos aspectos do M&A. 

Sua paixão pela área e busca constante por conhecimento o levaram a se destacar e, em pouco tempo, se tornar um membro valioso da equipe. 

Nos últimos anos, participou de importantes transações nos setores de logística e saúde. 

Fora da J2L, João se envolveu em projetos acadêmicos que demonstram sua versatilidade e aptidão para negócios. Como membro da Escola de Negócios da UFRJ – Consulting Club, participou da criação e implantação do processo avaliativo para novos membros. 

Lúcio Otávio

Membro do Conselho de Administração ,
CEO e fundador da J2L Partners.

Mais de 30 anos de experiência em posições executivas

Trabalhou durante 14 anos no Grupo Andrade Gutierrez, sendo Diretor de Investimentos sua última posição

Foi membro do Conselho de Administração da Oi S.A. e da Santo Antônio Energia

Foi responsável pela estruturação de projetos como Hidrelétrica de Santo Antônio e Aeroporto de Quito – sendo esse último eleito pela revista Project Finance o Latin American Transport Deal of the Year no ano de 2006

Gestor de investimentos credenciado pela CVMGraduado em Administração pela FUMEC – MG e MBA em Finanças pelo IBMEC.

Líbano Barroso

Membro do Conselho de Administração e
fundador da J2L Partners, e CEO da Rodobens

Mais de 30 anos de experiência em posições executivas

Posições nos últimos 15 anos: Membro do conselho de Administração da Via Varejo, Estácio, Ri Happy e Intermédica. CEO da Via Varejo, Vice Presidência do Grupo Pão de Açúcar, CEO da TAM, CFO da LATAM Airlines, CEO da Multiplus e CFO da CCR

Responsável pela idealização e estruturação da Multiplus e da CCR (incluindo sua Oferta Pública Inicial), e pela fusão LAN/TAM

Graduado em Economia pela UFMG – MG, MBA em finanças pelo IBMEC e Pós-graduado em Direito Empresarial pela FGV.

João Lanza

Membro do Conselho de Administração e fundador da J2L Partners,
e Diretor-fundador da Mundinvest CTVM.

Mais de 40 anos de experiência no mercado de capitais

Posições nos últimos 15 anos: Membro do Conselho da BOVESPA, Membro do Conselho da BSM – BM&F BOVESPA (supervisão de mercados) e Presidente da APIMEC-MG

Gestor de investimentos credenciado pela CVM, responsável por administrar carteiras de clubes de investimento na Mundivest.

Graduado em Administração pela FUMEC – MG.